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#2 Fotografia

  • há 6 dias
  • 2 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

"The single most important component of a camera is the twelve inches behind it!" 

Ansel Adams


Luís Romero



Foi através da palavra… que descobriu a imagem… através da poesia, o poder atrás da composição… através do trabalho de “guerrilha” que percebeu que o ângulo, não só se decide, como se impõe…


A criação poética surgia como se fossem fotogramas estáticos, mas orgânicos… como esotéricos cinemagramas brotavam imagens… e uma se fixava… tinha significado, tinha uma emoção, tinha uma história…


Então procurou descobrir o abecedário para esta linguagem que lhe surgia natural: a visual. E descobriu que as composições que se lhe impunham quando tinha uma câmara na mão já o guiavam á simetria e aos terços onde viria a ancorar os interesses, que as linhas de força o levavam por diagonais até ao objecto, que sentia necessidade de deixar o protagonista respirar quando lhe oferecia espaço negativo, a indelével necessidade de compor uma assimetria, o natural das espirais… dirigir olhares com imperceptíveis vinhetas… e com um companheiro de trabalho aprendeu a cropar distrações, as insignificâncias que criam ruído e poluem o todo…


Depois seguiram-se picados e contra-picados que, como artes negras, ofereciam grandeza ou pequeneza… e depois a luz do dia suavizada por uma cortina… que as conferências de imprensa em frente a uma janela o irritavam não só pelo contraluz mas pela contra-inteligência e outras formas de autismo profissional… descobriu que Rimbaud trazia sempre um triângulo de luz na mala e o homologou até aos dias de hoje, que Bresson via ligações em figuras geométricas invisíveis num “Instante decisivo” de perfeição composta…


Mas para chegar aqui, e dar tiros certeiros, era preciso primeiro conhecer a “arma” e como ela funcionava, assimilar o triângulo da exposição e a necessidade de que uma objectiva tem de usar, em momentos sensíveis, “ óculos de sol”... 


…e viu-a ao longe,

- a 50 metros com certeza - estava no muro onde antes se secaram bacalhaus…

o casal almoçava na mesa paralela disfrutando satisfação e tranquilidade sem suspeitar que ela tinha a mira no cesto pão…

e ela não suspeitava que o “caçador” também a mirava e a tinha visto protagonista de duas capturas…que ainda não tinham acontecido! (a dela do pão, e a minha, dela…)


…e ele olhou para baixo, para a “arma” ao nível da cintura, quase como se não quisesse assustá-la…

(a 50 metros!?)... e mudou o foco para “perseguição” de uma ideia… aumentou a velocidade de obturação para a congelar em sua vitória de foto finish, compatibilizou os dois outros vértices do triângulo, o sistema de foco--- apontou e esperou… esperou como se esperasse dentro da própria mira… era a câmara…


…ela disparou para o assalto e ele também… 

…e ficou assim, como em âmbar digital, uma gaivota com um pão roubado no bico em pleno ar na Ribeira… e apesar de não ter aparecido Sir David Attenborough atrás dos panos de cozinha com padrões tradicionais que ali se vendem… ela, como um “guna aéreo”,  posou em toda a sua glória de falcão urbano…


…um orgulho para Fernão Capelo.


© Luís Romero 2026

 
 
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