#4 Som
- 22 de jun.
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Atualizado: 22 de jul.

Imagem de Colin Behrens por Pixabay
Lá fora, no vazio frio e escuro do espaço sideral, sem moléculas, o som não se propaga... a dor não se ouve,
o grito, a existir, existirá apenas ilustrativo, simbólico, como no quadro de Munch...
O som possibilita-nos a imersão... na história, no enredo, na emoção... leva-nos a acreditar que
estamos lá - que fazemos parte...
Dos 20 aos 20 mil os hertz são preenchidos por ondas que, ancoradas previamente na nossa
memória, nos indicam onde estamos pelo som e a sua reverberação, nos atraem ou repelem,
pelo tom quente ou estridente... nos remetem a uma infância, já para o consciente oculta, que
nos consola, ou um trauma que, recalcado, secretamente nos viola...
Uma batida em repetição... certo o compasso: o coração...
acelerado: excitação...
padrão, no som, pim, pom,
onomatopeias e aliteraSom...
Respiração próxima afogueada: intimidade;
o ranger da madeira por passos leves e lentos:
humm... maus intentos...
Surge de repente e a meio de um discurso rápido uma voz abafada: as notícias... pela cadência;
ininteligível, mas com tom aflito: a urgência...
O corte abrupto a meio do discurso: desinteresse, indiferença...
O volume de um motor que sobe: aproximação;
o eco, a reverberação: pista de localização...
Stereo que desliza e termina em “pim”: um elevador;
as batidas numa porta: estado de espírito ou intenção...
lentas e suaves: suspeita-se...
curtas e objectivas: certeza;
padrão rítmico curto: humor... familiaridade...
uma senha secreta... escondem-se... resistem...?
Em algo se bate um vidro se parte uma mulher grita alguém luta a arma dispara o grito é
primal...
...o ganir assustado de um cão: choque e sofrimento... puro, de animal...
Música: um gosto, uma personalidade, um estado de espírito... o tilintar no vidro... e um gargalo
que meditativamente se desenrosca... a bebida que se precipita para o copo como a água para o
Niágara e se ouve como se o microfone lá estivesse dentro, a testemunhar o provocar da
rebentação do líquido nas costas de uns cubos de gelo que levitam e rodopiam em câmara lenta
dentro do copo...
jazz melancólico...
um engolir decidido:
é de certeza algo forte a embrulhar um dia difícil... a descomprimir uma encruzilhada mental,
uma manta etílica que levemente surge pela circulação sanguínea e separa o exterior frio, de um... “interior Noir”...
Mics dinâmicos e outros mics sensíveis... XLR ao recorder... 44, 48Hz, grava a 96 e 32 bit... float
na trip e estás seguro que não queima... liga à placa, mete binário nesse analógico...
depois vêm os pans para aprimorar a geolocalização, ou criar confusão, a equalização que
descrimina e acentua, os compressores a encapsular o poder da besta, os limitadores a porém-
lhe rédeas... os níveis crepitam quentes a dar a medida...
dás-lhe mais gain e mais um gole...
As colunas dão retorno... e a introspecção obsessiva em loop: feedback...
O estalo rasga e ecoa na planície: relâmpago e trovão...
...a chuva cai como a cortina que encerra a peça e nós, ainda de mão estendida, somos
afastados, de beicinho, do onírico:
Fade out.
- “NO HAY BANDA, NO HAY ORQUESTRA!”
- Não, é MIDI... nas mãos de Zimmer.
- “This is all... an illusion...”
O buzz elétrico de uma lâmpada que termina num click...
Um molhe de chaves, uma porta, duas voltas...
...estacionado o fato de ser veículo do realismo...
o homem do Foley arranca para casa...
© Luís Romero 2026


