#3 Edição bitmap
- 23 de jun.
- 3 min de leitura
Atualizado: há 4 dias

Luís Romero
A plasticidade da arte gráfica digital, do artifício do marketing, da manipulação dos pixéis para a magnetização da atenção, como um snapping de humanos na tela civilizacional actual.
Agradece o entendimento do funcionamento do sistema cognitivo, do preenchimento das lacunas na informação, que o cérebro faz, do reconhecimento de padrões e a reinterpretação das memórias, para atrair a atenção e guiar, dirigir o olhar para a informação a reter, o call to action, para o click through, para o buy in de produtos e conceitos… a satisfazer necessidades reais ou criadas, por utopias ou distopias…
Partilhar, informar, vender, convencer… através da conjugação de técnicas num caldeirão de bits… manipular, distorcer, desvanecer, transparência e ofuscação, humanização de objectos em transformações surrealistas, marcha de milhões a fazerem pela vida, o horizonte oculto pelos data center, forças de ocultação e forças de exposição, forças de agregação e de desintegração… num tiny world cada vez mais apertado pelo sistema em que vive… logótipo:
o acossado.
O aproveitamento útil ou fútil, virtuoso ou demagógico, de partilha ou de lucro, muito lucro a testar os limites da tela... a recusar seguir qualquer grelha… a inversão dos eixos… numa diagramação em F, de frenética, para um target em C, de cataléptico…
O forçar da linearidade das narrativas, a simplificação brutalista da realidade condicionada a caber nos 30 a 40 segundos -no máximo-, melhor nos 20, ou mesmo 10 segundos ,para atingir o objectivo, no fundo, acabar por dar só o recado, a conclusão, enfim, bilhetinhos e não cartas, bullet points e não histórias…
A limitação de recursos, a factualidade -e fatalidade- da Dívida de operação de uns vs a Maximização do lucro de outros e, na escassez de recursos, o tempo da audiência um deles na Economia da atenção, onde a concorrência de tantos outros meios e operacionais, colectivos e individuais influencers, levam os média não apenas a veicular a informação de um acontecimento, mas a embrulhar tudo num produto acabado e pronto a… não só consumir, mas simplesmente a tomar, já explicado e concluído, fechado… como uma mãe ave a fornecer a comida já previamente por si digerida às crias…
...a infantilização da audiência… o brain rot… a corrosão do resto da sua mente com um all you can eat buffet de fast food pathos-lógico, que fornece mais e mais do que o indivíduo quer para o manter agrilhoado à adição à dopamina… versão soft, e assim mais insidiosa, das agulhas que mantêm os olhos abertos à força numa laranja que já não é mecânica mas digital…
Hordas de indivíduos manietados por químicos e processos neurológicos e atraídos a ver para, depois, serem atraídos a comprar, produtos e conceitos… os velhos média a suicidarem-se pela cópia do pior dos novos media, a transformação de veículos de factos em criadores de conteúdo emocional acabado e embrulhado por homens e mulheres mas a lá algoritmo... o sistema e a estupidificação daqueles que o devem construir e, consequentemente… aos “seis de janeiros”…
Dunning-Kruger e o perigo que é os burros se acharem, de repente, geniais, os salvadores das pátrias…
e a crónicas de um declínio anunciado… a fuga para a frente de um sistema perante o excesso de si mesmo… a desigualdade, o abismo… o ecossistema cego circular que suporta o sistema e o leva ao (ex)poente…
E também o: “Alguém tem que fazer alguma coisa!”
-Quem?
-O governo… Eles! (?)
O eu não pode… tenho um almoço, vou ao shopping, ao mecânico, uma tarde no banco, às finanças, 12 horas nas urgências, horas extra no trabalho, tenho que pagar as contas… não é comigo… que raios ORGANIZEM-SE E LIDEREM-ME!
…mas liderem-me sem me dizerem o que fazer… porque eu sou, no fim de contas, um
CIDADAO SOBERANO!
Mas assim como o homem vê os seus limites no limite da tecnologia onde a ampliação se esgota no grão, no pixel, também a máquina tem o seu limite no off… resta saber se o botão foi considerado pelos engenheiros da máquina, se existe, se se encontra facilmente ou foi enterrado por dark practices em formulários labirínticos de cessação de contrato… ou será que, dependentes, por desenho, desencorajados pelos infindáveis e obscuros terms and practices e por, comodamente dependentes, já não nos vislumbramos offline?
Será que ainda é possível cancelar a conta? Será que queremos? Ou já não conseguiremos deixar de ser, simultaneamente, promotores, editores e alvos de bits?
A facilitação tecnológica da dureza da vida natural, que a tornou mais suave aos seres, mais igualitária e cómoda e, no seu abuso pelo vício de sempre, a tornou mais complexa e artificial, e assim, o seu propósito se inverteu...
Mas ei!
Chegou a nova tecnologia e, os seus promotores, como antes nunca outros tinham dito…
“Esta é que vai for!”
© Luís Romero 2026


