#1 Argumento
- há 5 dias
- 4 min de leitura
Atualizado: há 5 dias
A vida bate e esmaga a alma, a Arte lembra-nos que temos uma.”
Stella Adler

Valerio Errani - Pixabay
INT - DIA - HORA INCERTA
Fade in
A audiência levita à boleia da dolly ao entrar na sala em penumbra de um apartamento
espartano e em desordem, que deixa adivinhar um quotidiano desregrado, uma existência a
tentar um arriscado bluff com a sanidade... assim como o indivíduo que tinha os lábios no sax
que se ouve em fundo... agrilhoado num loop de melancolia e remetido para a pista três do
editor não linear...
Láminas de sol rasgam a névoa da sala por entre os estores venezianos como um doce mas
inapto ansiolítico, num ser em tumulto... um interior Noir...
O jump cut transporta o espectador ao plano pormenor de um cabelo desgrenhado, outro se
segue de uma mão involuntária que coça mecanicamente uma barba mal amanhada... outro de
uma nódoa na camisa, logo novo corte e o som de um batimento cardíaco que acelera... outro,
o suor na testa, outro, as narinas que se dilatam a tentar sorver mais ar... o batimento mais
rápido... o trio de jazz a espalhar-se para a luxúria do excesso... uma pupila frenética em
macro... o piano é martelado... o sax insano... as vassouras em transe... bullet time de um trio de
jazz em êxtase... plano aberto, um vulto levanta-se da secretária... a mão em direcção á
cabeça... o batimento pára...
...a audiência sustém a respiração e agarra-se á cadeira durante a vertigem quando a
dolly bate em retirada da sala enquanto a câmara faz zoom in e... PUM!!!...
a cara de um homem estatela-se no chão que uma grande angular capta em primeiro plano,
rodeada de colunas de livros que se erguem acima desta, num ângulo holandês que tinha
fumado charuto, décadas antes, com Orson Welles...
Mas tinha sido apenas uma alucinação induzida pelo cansaço... um quotidiano desregrado, uma
existência a tentar um arriscado bluff com a sanidade... embrulhados num sexy e
cinematográfico... ataque de pânico...
grande plano da sala...
fade out.
João era argumentista e tinha o sonho de vingar em Hollywood... de tal forma que mudou o
nome para John e abalou para L.A.
Estudou todas as fórmulas, leu todos os livros, e aceitou todos os trabalhos para sobreviver e
suportar a vida a caminho do sonho... no entanto...
...o nosso filme apresenta-se num fade in para John num quarto descuidado, o seu computador
portátil na mesa estava rodeado de livros de técnica: “Escreva o próximo blockbuster”; “As
Técnicas secretas do argumentista de sucesso”, “A fórmula oculta do Bestseller”; mas já a
“Poética” de Aristóteles estaria a monte... a primeira baixa da sua sofreguidão pelo
reconhecimento... e provavelmente a única que alguma vez precisou...
Vítima do seu próprio falso ídolo - o sucesso - esqueceu que lhe bastava uma ideia que o
animasse... um assunto que Importasse, uma forma que tocasse... afinal, cinema é contar
histórias através de um enredo que cative, reter o espectador através do obstáculo, do conflito...
a exploração da natureza e comportamento humanos... hamartia e a falha do personagem
e por fim, a libertação da tensão através da catarse... uma conclusão, uma moral... ou um espelho
antropológico que reflita o espectador sobre ele mesmo, o Homem, a Vida... como um murro no
estômago que o faça estremecer, que o deixe em suspenso numa reflexão existencial...
...estava focado em tudo, obsessivamente procurava a Fórmula, a fórmula vencedora, mas
tinha-se esquecido do essencial: a ideia, o tema, o tom... a interrogação filosófica... um
paradoxo sentimental... a incongruência e os limites do Ser... um valor maior... porque se tinha
esquecido de se dar a literatura que o transportasse para outras paragens, de ver filmes que lhe
re-animassem a alma, de se perder no vazio escuro e do impossível, fértil, de uma sala de teatro
momentos antes de ser sequestrado para outra dimensão... a Arte como suporte básico de
vida... e mais...
...de Olhar para o lado no Metro, de Ver na lavandaria, de Reparar... no café, no banco, na rua...
de olhar para a sociedade como uma águia a varrer o solo à procura de uma presa conceptual,
através das notícias, das redes... enfim, tinha-se esquecido de... Viver...
E fazer a pergunta das perguntas a si mesmo: desejas o prémio ou a partilha, a fama ou a
criação, a riqueza resultado de um sucesso ou a autoria de um impacto na vida dos outros?
Nisto John percebeu que tinha encontrado A história... a sua vida era a história, o seu equívoco
existencial era o tema, o conflito era interno... obstáculos? ...ele era um imigrante em
Hollywood, não lhe faltavam obstáculos -... e em qual, se não a de Hollywood, seria a audiência
em que melhor ressoaria a sua história?
Personagens, diálogos, sequências e planos viriam depois e viriam naturalmente, Griffith e a
acção paralela, Eisenstein e a justaposição... os arquétipos de Jung... com certeza tinha
conhecimentos para fazer mais do que “A saída dos operários da fábrica Confiança”...
Tinha encontrado a ideia, só precisava de a tornar interessante - se já não fosse. Agora era livre
de criar a história como quisesse: na actualidade, no futuro... numa colónia espacial, em
animação... uma história de época... podia ser um militar romano, um músico, um cozinheiro...
...ou até podia ser João, um imigrante português, à procura de sucesso em terras do tio Sam...
© Luís Romero 2026


